terça-feira, 11 de março de 2008

O Padrinho!?

Estava outro dia na seção de DVDs de uma loja quando me deparo com a capa de um filme que me parecia familiar, mas o nome nem tanto: “O padrinho”. Logo percebo que trata-se do nosso conhecido “O poderoso chefão”, que os portugueses fizeram a tradução literal do inglês - “The Godfather”. Achei curioso e notei então que o mesmo acontecia com vários outros filmes. O clássico “Noviça Rebelde” foi traduzido como “Música no Coração”, que é mais próximo do título em inglês “The sound of music”.
Às vezes acontece o contrário: nós fazemos a tradução literal e eles é que inventam moda. O filme “Mais estranho que a ficção”, cujo título original é “Stranger than fiction”, foi traduzido pelos portugueses como “Contando ninguém acredita”. Outro caso é o “Adaptação”, que em inglês é “Adaptation”, e aqui é “Inadaptado”.
Nos casos em que a gente mantém o nome original do filme, os portugueses fazem questão de traduzir. “Grease” aqui é “Brilhantina”; e “Ghost” é “Espírito do amor”.
Muito engraçado eu achei o nosso “Entrando numa fria maior ainda”, que aqui tem o criativo nome “Uns compadres do pior”. Mesmo estando aqui há quatro meses, não entendi a graça desse título! Neste caso, o nome em inglês não tem nada a ver com nenhuma das duas traduções: “Meet the Fockers”.
Há filmes em que as diferenças são sutis, mas curiosas: “Piratas do Caribe” é “Piratas das Caraíbas”; “Sociedade dos Poetas Mortos” é “Clube dos Poetas Mortos”; “Os embalos de sábado à noite” é “Febre de sábado à noite”.
Isso sem contar a famosa série “Lost”, que em Portugal também faz muito sucesso, mas com o nome de “Perdidos”. Faz todo o sentido, mas soa engraçado a princípio.

domingo, 9 de março de 2008

Um pouco de música

Na sexta-feira assisti pela segunda vez à apresentação de um grupo de música medieval chamado “Sons da Suévia”. Gostei muito! São cinco músicos aqui de Braga que tocam a gaita-de-foles e diversos instrumentos de percussão. Achei lindíssimo o som da gaita-de-foles! Eles usavam trajes medievais, o que tornou a apresentação ainda mais interessante.

Coloquei no youtube um vídeo que fiz na primeira vez em que os assisiti: http://www.youtube.com/watch?v=JzjOUv5NHVk

O site do grupo é o http://www.sonsdasuevia.com/inicio.html. Lá há outros vídeos deles tocando. Espero que gostem!

sexta-feira, 7 de março de 2008

Óbvio? Nem sempre.

Tenho observado que os portugueses muitas vezes fazem interpretações literais do que dizemos. O que é óbvio para nós, nem sempre é para eles. Em algumas situações isso torna-se engraçado.
No Centro de Braga, é comum encontrarem ruínas romanas quando se fazem escavações para construírem novos edifícios ou ampliarem os já existentes. Quando isso ocorre, geralmente interrompe-se a obra ou modifica-se o projeto inicial para preservar as ruínas descobertas. Foi o que ocorreu em um restaurante conhecido na cidade, o “Frigideiras do Cantinho”, quando seus proprietários decidiram ampliar a cozinha que ficava no subsolo. Neste caso, além de preservar as ruínas, eles resolveram fazer dela uma vitrine de seu estabelecimento: colocaram um piso de vidro na área onde os clientes sentam-se às mesas, pelo qual é possível observar as ruínas enquanto se saboreia uma das especialidades da casa. Estive lá almoçando com um amigo e, enquanto nosso bacalhau à brás não chegava, apontei ao chão e perguntei à empregada de mesa (= garçonete): “É possível entrar lá para ver as ruínas?”. Ela responde prontamente: “Sim, é possível.” Fiquei toda animada e disse-lhe: “Como faço pra ir lá então? Posso ir agora?”. Ela: “Não, não pode.” Surpresa e um pouco decepcionada, eu replico: “Mas você acabou de me dizer que é possível!”. Ela: “Sim, disse-lhe que é possível, mas não que é permitido.”
Outro caso: nos últimos meses, todas as lojas de Braga fizeram promoções de inverno, que aqui são mais conhecidas como “saldos”. É claro que aproveitei para aumentar meu vestuário de inverno, que até então era escasso. Nesse entra e sai de loja, senti logo que os vendedores daqui não são tão atenciosos quanto os brasileiros. Mas pra ser sincera até gostei disso, pois não tenho muita paciência pra vendedor que não desgruda e que insiste em insistir que você leve alguma coisa. Enfim, o que ia contar era que, em uma dessas lojas, gostei de uma blusa vermelha e perguntei à vendedora se havia da mesma na cor preta. Ela disse-me que sim. Eu então aguardei que ela me trouxesse a blusa. Passou um tempinho e ela não voltava com a blusa. Perguntei-lhe então se a tinha encontrado. Ela simplesmente responde: “Mas não me dissestes que era pra eu trazê-la!” Bem, se eu perguntei se tinham a blusa, não era porque eu queria saber como ia o estoque de mercadorias da loja, né!

Pra quem tiver curiosidade, aqui está o site do restaurante, com algumas fotos das ruínas: http://www.frigideirasdocantinho.com/instalacoes.html

quinta-feira, 6 de março de 2008

Português X “Brasileiro”

Ainda sobre a língua… Estava eu hoje na aula de natação quando o instrutor pediu que eu fosse à pista 4 e nadasse bruços. Comentei então com meu colega na “pista” vizinha que, no Brasil, “pista” era raia e que nadar “bruços” era nadar peito. Ele então disse-me: “Tás a ver… São tantas as palavras diferentes que deveria existir um dicionário Português-Brasileiro”. Achei engraçado, e o pior é que não foi a primeira vez que disseram-me isso!
Mas eu até acho que seria mesmo interessante um dicionário com as palavras e expressões equivalentes. Ao menos seria muito útil para os que transitam de um país a outro. Mais ainda para os brasileiros, que só conhecem as expressões estereotipadas utilizadas pelos portugueses, como “pois”, “rapariga”, etc. Os portugueses, em contrapartida, já conhecem as utilizadas por nós através das novelas, outros programas televisivos, música e toda a cultura brasileira que chega aqui e já faz parte de suas vidas.
Entre as primeiras expressões que aprendi em Portugal, estão “fixe” e “giro”. “Fixe” é “legal”, e “giro” é “muito legal”, mas também pode ser “bonito”. Assim como muito também é substituído por “bué”. É comum ouvirmos a seguinte frase: “Isso é bué da fixe!” A princípio essas palavras me soavam “bué” de esquisitas. Mas agora já me acostumei e elas estão até se incorporando ao meu vocabulário!
Outra expressão que usam “bué” aqui é o tal do “se calhar”. É incrível: conseguem utilizá-la em todos os contextos possíveis! É algo como “talvez”, “quem sabe”, “se der”. Eu até gosto do “se calhar” e acho que seria “fixe” se também a usássemos no Brasil. Mas há uma outra que não aprecio: “mais pequeno”. A princípio eu pensava: Como pode! É tão feio ouvir essa gente falar errado! Mas aí observei que o “mais pequeno” estava na boca de todos, inclusive dos meus professores do mestrado! Procurei então saber porque não diziam “menor” e me explicaram que o “mais pequeno” está sim gramaticalmente correto. Não fui conferir em uma gramática, mas acreditei no que me disseram.
Para não ficar só falando das palavras que me soam esquisitas, há uma que acho bonitinha: “miúdo”, que para nós é criança, adolescente, jovem. Adoro ouvir miúdo pra lá, miúda pra cá… Mas também chamam as crianças de “putos”, o que já não é tão meigo assim.
Quase sempre é possível deduzir o significado dos termos que desconheço pelo contexto. Mas às vezes eles podem confundir-nos. Um “bocado” ou “bocadinho” é o mesmo que “pouco” e “pouquinho”. Enquanto “cueca” é tanto a roupa íntima masculina, como também a feminina! Na minha primeira semana aqui, a proprietária do apartamento onde vim morar, uma senhora muito atenciosa, orientou-me como eu poderia lavar minhas roupas: “As cuequinhas não precisas colocar na máquina…”. Eu pensei: “Desde quando uso cuecas!?” Não disse nada, pois imaginei que ela se confundira por ser uma senhora de idade. Entretanto, poucos dias depois, uma das meninas que mora comigo disse-me que precisava lavar suas cuecas… Uma senhora confundir cuecas com calcinhas era compreensível, mas uma jovem com seus 20 e poucos anos era meio esquisito. Perguntei-lhe então: “Cueca por acaso é calcinha!?”. Tirada a dúvida, descobri que eu de fato uso cuecas!
Bem, a lista de palavras diferentes é enorme. Não é possível falar de todas de uma só vez! Mas prometo que ainda farei aqui muitas outras “traduções” do português para o “brasileiro”.

quarta-feira, 5 de março de 2008

A língua

Ainda no Brasil, quando contava aos amigos e familiares que estava de partida a Portugal, um comentário corrente era o de que aqui eu não teria dificuldades para comunicar-me, uma vez que “a língua é a mesma”. É verdade que nós, brasileiros e portugueses, falamos a mesma língua. Entretanto, não foi isso que pareceu-me logo que aqui cheguei. Durante meus primeiros dias em Braga, custava a entender metade do que me diziam os portugueses! Em alguns momentos eu cheguei a pensar que seria melhor se estivesse num país onde a língua fosse outra, pois assim eu já estaria “à espera” de não compreender tudo o que me diziam…
Aos meus ouvidos, o sotaque português soa como um falar rápido, para dentro, como se estivessem com o nariz tampado e comendo algumas sílabas. Não acho muito bonito, prefiro o sotaque brasileiro. Muitos portugueses, inclusive, admitem também preferir o nosso “falar cantado”. Mas talvez isso ocorra porque eles têm muito mais contato com a nossa cultura do que nós com a deles. Temos certa tendência a apreciar o que nos é familiar.
O sotaque é deveras diferente, isso é fato. Mas a língua segue sendo a mesma, certo? Depende do ponto de vista. Para muitos portugueses nós não falamos português, mas sim “brasileiro”. Já deparei-me com algumas situações curiosas.
Dia desses estava eu num restaurante, quando uma criança da mesa ao lado começou a brincar comigo. Logo estava eu no maior papo com a menininha. A mãe dela, ao observar nossa interação, disse à filha: “Percebes o que ela está a falar?” A menina não diz nada, aí a mãe: “É brasileiro! Igual nas novelas!”. Pronto: repentinamente minha língua materna deixa de ser o português e passa a ser o brasileiro!
Recebi na última semana um email de um colega português pedindo que eu “traduzisse” algumas frases para o brasileiro. Para mim foi o mesmo que pedir para eu fazer uma tradução do português para o português! E foi o que eu fiz!
O mais interessante nessa história toda é que a cada dia aprendo palavras e expressões novas, que fazem parte da minha língua, mas que até então nem imaginava que existiam. Algumas muito engraçadas, outras bem esquisitas… Mas isso já é assunto para um próximo post!

terça-feira, 4 de março de 2008

As primeiras impressões

Estou há quase quatro meses em terras portuguesas. Antes de vir pra cá, minhas expectativas não eram, digamos, das mais exigentes. Disseram-me que os portugueses eram pouco receptivos, um tanto preconceituosos e que o país era atrasado em relação ao resto da Europa.
Receptivos como os brasileiros, eles obviamente não são. Mas nem por isso deixam de ser um povo simpático e acolhedor. Preconceito há, assim como também há no Brasil e em toda parte. O que sinto, na verdade, é que há mais preconceito com os africanos e ciganos, do que com os brasileiros.
Portugal de fato não é dos países mais desenvolvidos da Europa, mas ainda conheço pouco deste continente para compará-lo com os seus vizinhos. Só o que posso dizer é que irrito-me profundamente com a burocracia que está entranhada em todas as instâncias da vida à portuguesa. Também não me agrada em nada a boa vontade e delicadeza (para não dizer o contrário) dos funcionários públicos portugueses. Da maioria deles, digo eu. Obviamente há algumas exceções.
Mas é possível relevar esses poucos inconvenientes se considerarmos tudo que esse país tem a nos oferecer: lindas paisagens naturais, igrejas e monumentos cheios de história, uma cultura tradicional e admirável. Aos poucos estou descobrindo o quão rica é a produção artística e musical portuguesa. Uma pena que tão pouco disso tudo seja conhecido em outras partes do mundo. Na medida do possível, vou fazendo a minha parte: o que me for apresentado e por mim “aprovado”, faço questão de aqui divulgar.