sexta-feira, 18 de abril de 2008

A sinceridade

Ainda no lidar com o comércio, uma outra qualidade que aprecio nos portugueses é a tal da sinceridade. Aqui não há muito daquela de o vendedor insistir para você levar um produto, “custe o que custar”. Além de ser bem mais agradável ir às compras sem ninguém para “encher o saco”, ainda podemos contar com a opinião sincera dos vendedores.
Mais uma no supermercado (assim vou acabar passando a impressão de que minha vida em Portugal é só fazer compras!). Na seção de frutas, a cliente pergunta à funcionária se as laranjas que lá estão à venda estão boas. Pensei: “Claro que ela vai dizer que sim, né! Ela trabalha aqui.”. Contrariando minhas expectativas, a funcionária responde à senhora: “Não estão não. Levei duas pra casa no sábado: uma delas estava seca, a outra pouco doce.” A cliente não levou as laranjas. E o mais engraçado era que eu já havia comprado das mesmas laranjas e as tinha achado saborosas. Isto é, a funcionária pode simplesmente ter tido o azar de escolher duas laranjas ruins, o que já foi suficiente para ela convencer outras pessoas a não levá-las!
Fui à uma loja de CDs escolher presentes para uns amigos e pedi ao funcionário sugestões de bons artistas portugueses. Ele me mostrou alguns e eu selecionei três deles para dar aos meus amigos. Mostrei ao rapaz, que aprovou a minha escolha. Disse-lhe então que estava em dúvida se também levaria um outro CD para mim, além dos que eu já estava levando para os meus amigos. Ele então aconselhou-me a não levar, pois já estava gastando com os presentes, e por isso deveria deixar para comprar o quarto CD numa outra ocasião, já que não era nada “urgente”. Pois é, nunca imaginei que um vendedor um dia me convenceria a fazer economias, ao invés de gastar. Em Portugal isso acontece.
Estava pesquisando preços de mochilas, e encontrei uma que parecia ser boa, e estava em promoção. Perguntei então à vendedora se era de boa qualidade. Ela disse: “Não é não, por isso é que colocamos em promoção.” Já costumada com essa “sinceridade típica”, perguntei então qual ela me aconselharia a levar. Ela respondeu-me que a mochila que ela realmente considera boa estava em falta na loja, por isso eu deveria esperar e voltar na semana seguinte. Isto é, ela preferiu que eu fosse embora sem consumir nada, ao invés de me empurrar um produto que ela mesma não compraria. Admirável!
Acho que já chega de contar casos ocorridos comércio. Para os próximos dias, prometo escolher temas menos “capitalistas”!

quarta-feira, 16 de abril de 2008

A confiança

Há uma característica dos portugueses que aprecio muito e acho, inclusive, que deveria servir-nos de exemplo. Sinto que existe aqui uma “cultura de confiança” entre as pessoas. Os portugueses tendem primeiramente a acreditar (ao invés de “desconfiar”) no que lhes dizem. Isso é fácil perceber na relação cliente-comerciante. Aquela máxima “o cliente tem sempre razão” parece funcionar bem aqui.
Comprei um óculos de natação que, após três semanas de uso, arrebentou. Voltei então à loja para trocá-lo, já imaginando que teria a maior dor de cabeça para conseguir um óculos novo. Estava enganada. O responsável pela loja não só não questionou por que ou como o óculos estragou, como disse que eu poderia escolher qualquer outro modelo para substituí-lo. Optei então por um modelo um pouco mais barato do que o que eu havia comprado inicialmente. Levei não só o óculos novo para casa, como também a diferença de valor de volta.
Numa outra vez, fiz compras em um supermercado e, ao chegar em casa e conferir a nota, percebi que haviam registrado, por engano, duas vezes um mesmo vinho. No dia seguinte, voltei ao estabelecimento para relatar o ocorrido, mas confesso que não acreditava muito que conseguiria meu dinheiro de volta. Afinal, o que garantiria que eu não havia trazido os dois vinhos pra casa!? Eu não tinha como provar isso, logo, eles não eram obrigados a acreditar em mim. Mas como já disse, aqui costuma-se “acreditar a priori”. Expliquei à funcionária o ocorrido e ela prontamente respondeu-me: “Queres levar um outro vinho ou prefere reaver o dinheiro?” Mais uma vez, sem dores de cabeça!
Um terceiro ocorrido. Dessa vez foi com meu vizinho, mas eu estava presente. Fui com ele ao supermercado (não o mesmo onde comprei o vinho) e antes de começarmos as compras, ele disse-me: “Vamos comigo ao ‘apoio ao cliente’ pois preciso trocar esse gel de cabelo”. Perguntei então qual o problema com o gel e ele explicou-me que estava com uma consistência mais sólida do que a de costume, apesar de estar dentro do prazo de validade. Até aí tudo bem, não fosse o fato de ele já ter usado o gel várias vezes e, pra completar, ainda não ter a nota fiscal nem nada que comprovasse que ele o havia comprado naquele supermercado. Eu achei a situação engraçada e disse-lhe: “Não adianta irmos lá, com certeza não vão trocar!” Mas ele, pelo contrário, não tinha dúvidas de que trocariam sim. E estava certo: sem questionar , a funcionária acompanhou-nos até a sessão onde estava o produto e deu-lhe um gel novo.
Essas situações me fazem pensar no quão facilmente as coisas se resolvem quando as pessoas simplesmente acreditam umas nas outras. Nesse aspecto eu admiro muito os portugueses. Queria eu que no Brasil funcionasse assim!

terça-feira, 15 de abril de 2008

A ironia

Cada vez que viajo, chego mais à conclusão de que o senso de humor é algo particular de cada cultura. É claro que na maior parte das vezes conseguimos rir das mesmas coisas, mas sempre há diferenças sutis, que às vezes causam situações engraçadas.
Como a maior parte dos brasileiros, costumo ser irônica com certa frequência. Mas por aqui (assim como em outros lugares), eu nem sempre sou compreendida como gostaria.
Costumo ir ao supermercado de bicicleta. Na semana passada, quando eu procurava um lugar para prender minha bike, um rapaz, que aparentava ser segurança do estabelecimento, mostrou-me onde eu poderia “estacioná-la” e disse: “Mas tens que prendê-la, pois podem roubá-la”. Para mim, era óbvio que eu colocaria o cadeado. Por isso resolvi brincar com o moço e respondi: “Não vou prender não. Confio em você, sei que vai vigiá-la pra mim!” Ele, além de não entender que tratava-se de uma brincadeira, ainda demonstrou-se preocupado, dizendo que não poderia vigiar minha bicicleta porque tinha “muito o que fazer e não poderia ficar o tempo todo à beira dela”. É claro que fiquei surpresa com a reposta dele e, em vez de explicar logo que eu estava brincando, resolvi insistir com o “gracejo”, dizendo que era para ele vigiar sim, afinal ele era o segurança ! Mas no final prederi deixar claro que estava apenas sendo irônica, para não correr o risco de ele ainda estar lá quando eu voltasse com as compras.
Outro “causo": na natação, o instrutor estava me explicando a forma correta de fazer a braçada no nado de costas e eu estava achando meio complicado, por isso resolvi brincar com ele e disse-lhe: “Não tô gostando desse nado que você inventou não! Trate de inventar outro pois esse não quero mais fazer!” Ele simplesmente começou a me explicar que não foi ele quem inventou as braçadas, que as técnicas que ele me ensinava eram universais e que eu deveria reclamar com quem inventou a natação! Mais uma vez tive que deixar claro que era só uma brincadeira e que eu sabia bem que ele não era o inventor daquela forma de nadar.
O pior é que, depois de um certo tempo aqui, a gente acaba adquirindo o hábito de sempre “explicar a piada”. Aí quando recebemos a visita de amigos brasileiros, nós é que viramos motivo de boas risadas!