quarta-feira, 16 de abril de 2008

A confiança

Há uma característica dos portugueses que aprecio muito e acho, inclusive, que deveria servir-nos de exemplo. Sinto que existe aqui uma “cultura de confiança” entre as pessoas. Os portugueses tendem primeiramente a acreditar (ao invés de “desconfiar”) no que lhes dizem. Isso é fácil perceber na relação cliente-comerciante. Aquela máxima “o cliente tem sempre razão” parece funcionar bem aqui.
Comprei um óculos de natação que, após três semanas de uso, arrebentou. Voltei então à loja para trocá-lo, já imaginando que teria a maior dor de cabeça para conseguir um óculos novo. Estava enganada. O responsável pela loja não só não questionou por que ou como o óculos estragou, como disse que eu poderia escolher qualquer outro modelo para substituí-lo. Optei então por um modelo um pouco mais barato do que o que eu havia comprado inicialmente. Levei não só o óculos novo para casa, como também a diferença de valor de volta.
Numa outra vez, fiz compras em um supermercado e, ao chegar em casa e conferir a nota, percebi que haviam registrado, por engano, duas vezes um mesmo vinho. No dia seguinte, voltei ao estabelecimento para relatar o ocorrido, mas confesso que não acreditava muito que conseguiria meu dinheiro de volta. Afinal, o que garantiria que eu não havia trazido os dois vinhos pra casa!? Eu não tinha como provar isso, logo, eles não eram obrigados a acreditar em mim. Mas como já disse, aqui costuma-se “acreditar a priori”. Expliquei à funcionária o ocorrido e ela prontamente respondeu-me: “Queres levar um outro vinho ou prefere reaver o dinheiro?” Mais uma vez, sem dores de cabeça!
Um terceiro ocorrido. Dessa vez foi com meu vizinho, mas eu estava presente. Fui com ele ao supermercado (não o mesmo onde comprei o vinho) e antes de começarmos as compras, ele disse-me: “Vamos comigo ao ‘apoio ao cliente’ pois preciso trocar esse gel de cabelo”. Perguntei então qual o problema com o gel e ele explicou-me que estava com uma consistência mais sólida do que a de costume, apesar de estar dentro do prazo de validade. Até aí tudo bem, não fosse o fato de ele já ter usado o gel várias vezes e, pra completar, ainda não ter a nota fiscal nem nada que comprovasse que ele o havia comprado naquele supermercado. Eu achei a situação engraçada e disse-lhe: “Não adianta irmos lá, com certeza não vão trocar!” Mas ele, pelo contrário, não tinha dúvidas de que trocariam sim. E estava certo: sem questionar , a funcionária acompanhou-nos até a sessão onde estava o produto e deu-lhe um gel novo.
Essas situações me fazem pensar no quão facilmente as coisas se resolvem quando as pessoas simplesmente acreditam umas nas outras. Nesse aspecto eu admiro muito os portugueses. Queria eu que no Brasil funcionasse assim!

2 comentários:

Gildo disse...

Estado de direito perfeito é quando podemos verificar a sua existência...mas cuidado nem todos democraticamente o praticam.
Boa noite....Gildo Loyola

Anónimo disse...

Daniela, achei muito legal o seu blog! Não é fácil encontrar uma pessoa inteligente como você disposta a contar aos brasileiros as peripécias da vida lusitana... Espero poder um dia juntar-me a você aí em Portugal. Não deixe de nos mandar notícias!
Olavo